Peripécias Gastronômicas - parte II

 

Gostaria imensamente de contar aqui neste blog todas as minhas inexperiências culinárias, mas não o farei. Dada a falta criatividade para inventar uma desculpa que bem maquie minha preguiça na escrita, empresto o argumento inspirado do apóstolo João para justificar a síntese: se meus desencontros com temperos, fôrmas, panelas e fogões “...alguma vez fossem escritos em todos os pormenores, suponho que o próprio mundo não poderia conter os rolos escritos” (João 21:25). Assim sendo, vou limitar os casos a um número suficiente à manutenção da minha imagem de, com o perdão da pobreza do trocadilho, cozinhéro à esquerda.

 

Com a mesma cara deslavada de quem chegou propositalmente atrasado ao jantar, vamos pular a entrada e o prato principal para passar direto ao que interessa – a sobremesa. Certa vez fui construir um pudim para levar a uma festa. Colocar os ingredientes no liquidificador talvez pareça a qualquer criança acima de 4 anos a parte mais simples do empreendimento. Não vou revelar exatamente quantos anos eu tinha quando tive problemas com os ingredientes, mas, por complacência, imaginem que eu sequer freqüentava o jardim de infância.

 

Depois de colocar os ingredientes no liquidificador, percebi que a quantidade deles foi gradativamente diminuindo. Cheguei acreditar numa nova versão da “força misteriosa” que habitava o escroto mundo da geração espontânea dando vida às larvas de carnes putrefatas do séc XIX (isso antes de Pasteur revelar que ela era cegueta e não conseguia achar a entrada do caninho que ligava o exterior ao alimento). Talvez ela tivesse consultado um oftalmo e ressurgido do monótono mundo do ridículo para bater um rango lá em casa e se divertir às minhas custas.

 

Não antes de um balbuciante “por que eu!?”, percebi os ingredientes se esvaindo dissimuladamente pelo copo mal encaixado do liquidificador. O alívio da descoberta só foi menor que o aperto da situação. O aperto da situação só foi menor que minha criatividade para resolvê-la. Minha criatividade para resolvê-la só foi menor que o desastre que se seguiu.

 

Com a mesma sensação que um alquimista teria em transformar chumbo em ouro, decidi transformar aquele meio pudim num mega empreendimento: o insólito pudim de dois andares.

 

Bati os restos mortais do acidente culinário e coloquei a cozinhar e esfriar. Passado o minuto de silêncio, completei a fôrma com flan de chocolate.

 

Não posso dizer exatamente o que saiu errado, porque não fui eu quem tirou o empreendimento da fôrma. Se quiserem saber, façam vocês mesmos.

 

Dica: antes de completar a fôrma com o flan, façam pequenas crateras no primeiro andar para que o segundo possa aderir a ele e não sofrer implosão na hora de desenformar.

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