A COSTUMEIRA ENROLAÇÃO PRÉ POST

 

Primeiramente, gostaria de dizer que, se acharem que a leitura é extensa demais, leiam metade hoje e a outra no próximo semestre (isso me pouparia da obrigação de ter de fazer um post no próximo semestre).

 

 

Neste post vou contar uma pequena perninha de uma das vogais da história da minha vida. Não que isso muito me agrade. Nada contra as vogais, o problema é olhar para essa história e ver a quantidade delas que foram dissimuladamente acrescentadas pelo tempo, que parece estar decidido a transformar aquilo que começou como uma história em quadrinhos numa verdadeira coletânea enciclopédica de uns nem Deus sabe quantos volumes. Bom, e se o acréscimo destas vogais me causa um certo incômodo, muito mais preocupada ficaria se elas parecem de ser acrescentadas. Então que o tempo continue na sua incansável missão e não decida nunca colocar um fim nessa valorosa – ao menos a mim - coletânea. Enquanto isso, vou tentando entreter meus amigos leitores com as perninhas das vogais mais interessantes.

 

Esse post é na realidade um “a pedidos” do personagem da história que não sou eu. Isso me deixa muito à vontade em usar a vida alheia para contar a minha sem ao menos pedir permissão.

 

Por questões legais, alguns nomes foram mudados. Ressalto, no entanto, que a lei não impede o leitor de lê-los de trás para frente, chegando a qualquer conclusão que queira.

 

 

O POST

 

Acredito cegamente na minha capacidade de jogar uma corda até o telhado. E se algum dia essa capacidade se mostrou incapaz foi por pura teimosia da corda. Como não gosto de teimosia, principalmente quando estou na construção, resolvi ceder e pedir educadamente ao alguém ao lado – um alguém que atendia pelo nome de Nosde e era alguns abundantes palmos maior que eu - para jogar a criatura teimosa. A resposta ao pedido me soou mais fora de contexto do que queijo ralado em torta de morango: “Eu não” disse ele. E como não bastasse, ainda prosseguiu: “Se vira, você não é quadrada!”. So acreditei que não se tratava de uma brincadeira quando a corda continuou estaticamente me olhando com cara de deboche.

 

Em situações como essas, a coisa mais sábia a fazer é pensar num exemplo bíblico a seguir. O que me pareceu mais apropriado foi o de Caim.  Imediatamente me censurei pelo péssimo exemplo que escolhi (comparado ao meu, o tamanho do ofensor jamais tornaria viável seguir tal exemplo!). O segundo da minha fila mental era Davi (com as mãos ocupadas pela funda), mas a incerteza de que eu teria apoio divino para cumprir a missão me fez desistir de Davi e dispensar os tantos outros que ansiosamente aguardavam sua vez. Fora do meu cérebro, me limitei a concordar com os outros à minha volta que arrazoaram ser a resposta uma grosseria.

 

Não queria contar isso, mas por fidelidade à triste realidade humana contarei: eu inventei uma doce vingança. Pior do que isso, pensei em me aproveitar da privilegiada função de distribuir suco e água  (inclusive o suco separado que o moçoilo pediu - sem açúcar) para fazer isso. Considerando sua aversão pelos sucos açucarados, achei que dar àquela singela criatura de língua grosseira um suco melado - de causar enjôo até em formiga - seria uma vingança de bom tamanho.

 

Nunca coloquei o plano em prática. Que os amigos se atartaruguem (não procurem essa palavra no dicionário) em atribuir boas motivações. Não o fiz porque a minha companheira de função insistia em lembrar do maldito suco sem açúcar do Nosde. Que os amigos também se atartaruguem (e não adianta procurar no Google) em atribuir más motivações. Nunca teria colocado o plano em prática, pois dez minutos depois do acontecido eu já nem estava mais me importando com a situação. Os que bem me conhecem sabem que estou sendo sincera. Só não imaginam que eu sinto uma imensa satisfação em saber que tenho essas boas idéias, mesmo que jamais tenha coragem de as colocar em prática (e nem teriam como imaginar, pois nem eu mesma tinha algum dia espiado essa faceta da minha personalidade).

 

No dia da inauguração, lembrei de uma regra que se minha mãe não me ensinou foi por puro esquecimento: “quem não é gentil não merece ganhar Gatorade, e quem não pediu também não”. 

 

Na próxima construção ele perguntou porque não ganhou Gatorade. Antes mesmo de eu ouvir a pergunta, minha imperfeição já estava eufórica como uma criança que acabou de ganhar uma viagem para a Disney. Em resultado, senti um vergonhoso deleite em responder: “porque você foi grosso comigo”. Dei aquela resposta mesmo sabendo que o real motivo estava após e não antes da vírgula na regra que minha mãe não me ensinou. Verdadeira vitória para a carne decaida! Mas ela ia ter lá o seu troco: desafio leitor a descobrir qual foi a reação do rapaz quando relembrada a situação (mediante testemunhas oculares do acontecido anteriormente).

 

Fitando-me com os olhos tomados por uma sinceridade que parecia ter sido furtada do resto do mundo deixando toda a humanidade na sua escassez (sinceridade essa que eu acredito que existiu, e que se não pude ver foi porque estava escondida por de trás de um óculos de sol de lente preta inexpugnável) ele disse: “Eu falei isso!? Você está falando sério!? Não acredito que eu disse isso!”. 

 

Ele não lembrar do acontecido e ainda estar indignado consigo mesmo pelo fato de talvez ter falado, era a única resposta que minha imperfeição não imaginava escutar. Não permiti que ela questionasse a veracidade das palavras dele, porque se tem uma coisa que eu aprendi – a duras penas – com as consoantes da minha enciclopédica história de vida foi não atribuir más motivações a ninguém.

 

Bom... resolvido o problema (que na verdade só existiu durante dez minutos e que resolveu ressurgir por mais 3), o acontecido virou motivo de piada entre os envolvidos, que desfrutam de uma boa relação de amizade onde não faltam tratamentos lisonjeiros como: Brad Pitt do avesso, estrupício, tampinha, urubu chupando manga e estrupiciozinho.

 

E se tudo serve para reflexão, a minha remonta ao inicio da história humana: nosso desquerido (dessa vez queimem o dicionário) pai Adão era burro. Ao invés de covardemente responder “A mulher que me deste...” ele deveria ter espertamente dito:  “eu fiz isso!?”.

 

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